Da câmera ao alerta, o que a IA já faz nos condomínios

Uma pessoa permanece por vários minutos perto do portão sem se identificar. Um veículo tenta entrar com uma placa diferente daquela cadastrada. Alguém acessa uma área restrita em um horário incomum. Situações como essas podem passar despercebidas quando um profissional precisa acompanhar várias câmeras ao mesmo tempo. É justamente nesse ponto que a Inteligência Artificial (IA) começa a mudar a rotina da segurança condominial.

Durante muito tempo, as câmeras foram utilizadas principalmente para registrar imagens que seriam consultadas depois de uma ocorrência. Com o avanço da visão computacional, tecnologia que as máquinas usam para reconhecer imagens, os sistemas passaram a analisar os vídeos em tempo real e a destacar eventos que merecem atenção imediata.

Na prática, a IA já consegue identificar pessoas e veículos, reconhecer placas, verificar permanências prolongadas em determinados locais e detectar movimentações que fogem dos parâmetros estabelecidos. Quando encontra uma situação previamente configurada como relevante, o sistema envia um alerta para que a equipe responsável verifique o que está acontecendo.

Isso não significa que a tecnologia seja capaz de determinar sozinha se alguém representa uma ameaça. Uma pessoa parada diante do condomínio pode estar observando a rotina do local com más intenções, mas também pode ser um visitante esperando autorização para entrar. A função da IA é chamar a atenção para aquela cena. Já a avaliação do contexto e a decisão sobre como agir continuam sob responsabilidade do profissional de segurança.

Outro uso possível está no controle de acesso. Sistemas inteligentes podem cruzar informações de diferentes equipamentos para auxiliar na conferência de placas, credenciais e imagens. Também podem sinalizar tentativas de entrada fora dos horários autorizados para serviços ou indicar divergências entre os dados cadastrados e as informações captadas no momento do acesso. Quando essas soluções envolvem dados pessoais ou biométricos, sua implementação também precisa observar critérios de privacidade, segurança da informação e proteção de dados.

Em áreas comuns, a tecnologia pode contribuir para o acompanhamento de locais sensíveis ou de circulação restrita. Dependendo da configuração adotada, o sistema consegue alertar sobre acessos indevidos, movimentações em horários determinados ou permanências incomuns em pontos que exigem maior atenção.

O principal ganho, portanto, não está apenas em enxergar mais, mas em ajudar a equipe a definir onde concentrar o olhar. Em vez de depender exclusivamente da observação contínua de dezenas de telas, o profissional recebe alertas direcionados e pode priorizar situações que apresentam algum tipo de desvio. Isso reduz o volume de informações que precisa ser acompanhado simultaneamente e favorece respostas mais rápidas.

Na experiência com operações condominiais, quanto mais bem definidos estão os protocolos para tratamento dos alertas, maior tende a ser a contribuição da tecnologia para a equipe.

É importante, porém, não chamar toda automação de inteligência artificial. Câmeras, sensores, leitores de placas e equipamentos de reconhecimento facial não são necessariamente sistemas de IA. A inteligência está no software capaz de analisar os dados captados, identificar padrões e produzir classificações ou alertas a partir deles.

A adoção dessas ferramentas também exige critérios. O desempenho da IA está diretamente relacionado aos parâmetros definidos durante sua configuração. Por seguir orientações previamente estabelecidas, a tecnologia pode apresentar limitações diante de situações que fogem do padrão para o qual foi configurada. Se os parâmetros forem mal definidos, o condomínio poderá receber alertas em excesso, gerar falsos positivos e sobrecarregar a equipe.

Isso também pode ser observado no próprio controle de acesso. Um sistema pode identificar corretamente uma pessoa autorizada, mas ter dificuldade para interpretar uma situação em que, por exemplo, três pessoas entram juntas sendo que apenas uma se identificou. A IA pode identificar situações previamente configuradas, mas nem sempre consegue interpretar o contexto de uma ocorrência atípica com a mesma capacidade de avaliação de um profissional.

Por isso, a tecnologia precisa estar integrada aos procedimentos da portaria, com responsabilidades claras para verificar ocorrências, acionar os protocolos adequados e registrar as providências adotadas. Em alguns condomínios, inclusive, o primeiro contato na portaria continua sendo realizado por um profissional, que posteriormente direciona o atendimento para a IA.

Assim, a IA não elimina a necessidade de profissionais preparados, nem corrige por conta própria falhas de planejamento e de operação. Seu valor está em ampliar a capacidade de monitoramento, organizar informações e apoiar decisões humanas. Mais do que instalar uma nova tecnologia, o desafio dos condomínios é incorporá-la a uma estratégia de segurança com protocolos, treinamento, manutenção e supervisão.

O futuro da portaria não depende de uma escolha entre pessoas e máquinas. Ele já começa a ser construído pela combinação entre profissionais qualificados, processos consistentes e sistemas capazes de direcionar a atenção para o que realmente precisa ser verificado.

*Por Fabiano Fernandes, CEO do Grupo Bravo TE