Da geração à eficiência: o novo papel da energia nos condomínios

Durante muitos anos, a discussão sobre sustentabilidade no setor imobiliário resumiu-se a uma pergunta: o edifício possui painéis solares? Hoje, com o aumento da demanda por eletricidade e a busca por previsibilidade de custos, essa métrica já não é suficiente. O mercado exige uma visão mais ampla, que englobe a gestão de todo o ciclo de consumo do empreendimento ao longo de sua vida útil.

O marco legal da geração distribuída (Lei nº 14.300) trouxe clareza regulatória e iniciou uma transição na valoração da energia compensada. Longe de inviabilizar a matriz solar, essa mudança força o amadurecimento do setor, exigindo que a geração limpa caminhe lado a lado com a eficiência construtiva e o planejamento operacional.

Nesse cenário, a rede de distribuição não é o problema, mas parte da solução. Em um modelo de fazenda solar remota, a energia é produzida fora do condomínio e integrada ao sistema elétrico, sendo contabilizada no sistema de compensação para abater o consumo das unidades vinculadas ao projeto.

Esse formato democratiza o acesso à energia limpa, eliminando a dependência exclusiva da disponibilidade física das coberturas dos edifícios. Na Habitare, essa visão estratégica orientou a criação da nossa própria Fazenda Solar, provando que os empreendimentos não precisam produzir sua energia no próprio terreno para participarem da transição energética de forma rentável.

Contudo, a geração remota não substitui a eficiência do edifício; ela a complementa. O empreendimento mais sustentável é, antes de tudo, aquele que desperdiça menos. Por isso, as decisões tomadas ainda na concepção arquitetônica — como orientação solar, aproveitamento de iluminação natural e ventilação cruzada — são fundamentais para reduzir desperdícios ao longo de décadas.

Essa lógica também precisa ser aplicada aos sistemas operacionais do condomínio. Elevadores, bombas e climatização representam grande parte da conta de luz. O uso de sensores de presença, medição setorizada e sistemas de gestão inteligente permite que os síndicos monitorem o consumo em tempo real, antecipando-se à chegada da fatura.

A sustentabilidade só produz valor real quando deixa de ser um conceito abstrato e melhora o cotidiano das pessoas. Um edifício termicamente confortável reduz a necessidade de ar-condicionado artificial e eleva o bem-estar da família. O comprador contemporâneo projeta o custo de manutenção e a experiência de morar que aquele espaço vai lhe entregar.

É assim que energia, wellness e smart living deixam de ser temas isolados para formar um ecossistema único. O conforto térmico, a eficiência operacional e a tecnologia se unem para criar edifícios inegavelmente mais saudáveis, responsáveis e inteligentes.

Essa infraestrutura também sofrerá forte pressão por novos hábitos urbanos, como a expansão dos veículos elétricos, que exige planejamento rigoroso de capacidade de carga nas garagens. O verdadeiro edifício inteligente não é o que acumula equipamentos como argumento publicitário, mas o que aprende com sua operação e se prepara para integrar novas tecnologias de forma viável e segura.

Existe uma grande diferença entre a sustentabilidade “de prateleira”, usada apenas na comunicação, e aquela efetivamente incorporada ao produto, que influencia a obra, a operação e o bolso do morador.

Na Habitare, acreditamos que a transformação das cidades não virá de uma solução isolada, mas da integração pragmática entre infraestrutura, tecnologia e comportamento humano. O futuro pertence aos empreendimentos que compreendem como utilizar a energia a favor da eficiência, da previsibilidade e da qualidade de vida.

*Por Roberto Coutinho é CEO e fundador da Habitare S.A. Executivo com mais de 20 anos de experiência em liderança, gestão corporativa e incorporação imobiliária, é mestre em Gestão Internacional pela FGV e administrador pela UFRJ. Também possui especializações em Liderança e Inovação pela Tel Aviv University (Israel) e em Gestão Exponencial pela Nova SBE (Portugal).